05 janeiro 2011

O Caso Desconhecido de Josyneide

 imagem do google


O CASO DESCONHECIDO DE JOSYNEIDE


Ele tinha um compromisso, hoje ao meio dia. O lugar para o qual precisava ir era na mesma cidade onde morava, porém em um bairro cuja localização era oposta. Encontravam-se como dois pontos em extremidades diferentes. A distância e a velocidade entre esses dois pontos foram calculadas, daí, bem no centro da aurora e da preguiçosa e o que iria acontecer seria, exatamente, no período desta e para a atividade exigida não poderia ter preguiça.
Às seis da manhã, o telefone tocou. Era o fruto do compromisso querendo certezas e teve metade delas.
Pedro ainda estava dormindo quando recebeu uma mensagem perguntando se já estava chegando. Olhou a hora e percebeu que não teria como chegar com pontualidade. Demoraria quase duas horas para estar no lugar de encontro e era exatamente naquele momento, onze e cinqüenta. Respondeu que se atrasaria, levantou-se e foi tomar banho. Na volta, ainda enrolado na tolha e com gotas d’água escorrendo-lhe até a barriga pelo peito branco, pelado e magro, como gotas de orvalho que descem pelas pétalas da rosa nua e graciosa na sua simplicidade, olhou o telefone celular para verificar alguma resposta. Saiu de casa um pouco inseguro, pensava se ainda estava em tempo de ir ou se desistiria.
O ônibus parou em um ponto que ficava de frente para uma escola, havia quatros ônibus escolares estacionados, era uma hora e vinte e cinco minutos. Pedro desceu, tirou do bolso seu aparelho celular e teclou uma mensagem. Seguiu até a esquina, virou à direita e seguiu uma longa rua que subia sutilmente, subia sempre. Atravessou a rua, um carro buzinou, Pedro estava agora do lado esquerdo, virou a esquina do penúltimo quarteirão.
Logo avistou o fruto daquele encontro. Estava esperando-o no portão, ambos deram um sorriso muito sutil e em seguida ficaram sérios. Apertaram-se as mãos, Pedro subiu uma pequena escada com azulejos cinza enquanto “fruto” fechava o guardião daquela casa.
Entraram pela cozinha, um cômodo pequeno com uma porta sanfonada ao lado da pia que dava para o banheiro. Água foi pedida e suco foi oferecido, a água foi preferenciada. Seguiram para o cômodo seguinte. As paredes eram de um salmão sutil, uma cortina alaranjava o espaço, no centro um grande tapete vermelho contornado de branco e sobre ele haviam algumas almofadas. Encostada na parede, mas no centro dela, ficava uma pequena mesa para apoiar o computador portátil, a sua esquerda estava a televisão e alguns outros aparelhos. Tocava uma musica dançante. Logo em frente, um corredor pequeno e escuro dava a uma porta antiga e marrom e logo mais no inicio, à esquerda, outra porta a qual guardava o quarto. Adentraram, havia uma cama de casal e para sua frente um pequeno espelho cumprido, um guarda-roupas cor marfim à direita, tudo muito bem arrumado, bem limpo.
Não trocaram muitas palavras. Enquanto “fruto” guardava algumas peças de roupas que foram passadas e ficaram sobre a cama, perguntou, timidamente, como andavam as coisas com Pedro que respondeu simplesmente que estava tudo certo, e em pé, observava calado com o rosto um pouco corado.
_ Tem certeza que ela não desconfia de nada?
A pergunta tomou conta do cômodo e paralisou ambos por alguns segundos, olharam-se e como um machado quebrando uma camada de gelo, uma resposta meio alterada, meio inconformada soou:
_ Não... não desconfia de nada!!!... Por quê?
_ Por nada...
Pedro foi para perto da porta e ali ficou em pé, enquanto a outra pessoa, naquele quarto, começava a se despir. Pedro observou e sabia exatamente o que significava aquele ato. Por instantes, sentiu-se inferiorizado. Teve a sensação de que o mundo subestimasse sua capacidade de pensar, de sua matéria como ser humano afetivo. Viu-se como um garoto de programa que marcara o compromisso só para entregar o corpo gratuitamente a alguém que apenas viu três vezes e aquela seria a terceira. Algo dentro de Pedro esperneava, deveria estar em seu semblante que aquilo não daria certo, que estava enojado. Desejou profundamente não ter ido...
_ Não temos muito tempo...
_ Como assim não temos muito tempo? Lá vem você acelerando...
Aquele corpo despido com as vergonhas cobertas pela roupa intima aproximou-se. Pedro segurou sua cintura, mas não sabia o que fazer; se tentasse afastar o corpo ou aproximá-lo, enquanto todo ritual era iniciado com a dança dos lábios. Ambos estavam envolvidos e trancados naquele quarto, tiveram a preocupação de fechar parte da janela de modo que o sol iluminasse o interior e que nenhum visinho, por ventura, testemunhasse tudo.
_ Só toma cuidado por que os visinhos podem escutar...
_ Tudo bem, pode deixar...
As coisas foram acontecendo, porém, Pedro ainda sentia que algo faltava e logo percebeu que não era o único a sentir. Sua atividade oscilava, estava nítido de que algo, por mais banal que fosse, estava errado. Sentia que sua presença não importava, que não faria falta ou diferença, que seu corpo era apenas um instrumento.
O ritual chegava ao seu termino. Parecia haver uma pequena frustração de ambos.
_ Que horas que ela vai chegar?
_ Por volta das cinco. Ela tem médico às três, mas ela vai direto para lá, vai sair do serviço e vai direto.
_ Já imaginou se ela chega aqui de repente?...
_ Não, que nada. Se chegasse você se esconderia de baixo da cama...
_ E como eu iria sair de lá? Pedro perguntou rindo.
_ Ah eu tiro ela fácil de casa, falo para irmos comprar pão na padaria, e quando não estivéssemos aqui, você pegaria a chave que está em cima da mesinha do computador e iria embora...
Neste instante, um beijo foi dado. Enquanto o visitante permanecia deitado, olhava para o outro corpo que levantava-se completamente nu: um corpo magro, branco e um pouco suado e que dirigia-se a um pequeno acessório fixado na parede, onde estava o celular. Pegou-o e discou. Pedro observava curiosamente:
_ Oi amor, então, já está no médico? _ Já? - olhou para Pedro. _ Mas que horas você vai sair? Quer que eu vou até ae? _ Sim sim, estou em casa, por quê?...
Depois de receber qualquer resposta, o celular foi fechado e um sorriso brotou. Gabou-se que mentia diretinho e pediu confirmação a Pedro que também sorria e não negou o pedido com resposta afirmativa.
Caricias foram dadas pelo ser que passava, ali, temporariamente e depois de alguns instantes, uma camiseta branca e uma toalha cor vinho foram colocados em uma sacola plástica junto alguns pedaços de papal higiênico e preservativos usados. Tudo iria para o lixo.
A camiseta e a toalha foram usadas para limpar conseqüências dos atos praticados àquela tarde naquele quarto. Pedro sentia-se culpado por ter se deitado naquela cama e um pouco enojado pelas substâncias que saiam daquele outro corpo, substâncias que não eram apenas essência vital.
_ Vou tomar um banho – risos – também né, depois dessa e olha que fui no banheiro antes hein.
Juntos tomaram uma rápida ducha, arrumaram-se. Incenso foi queimado para disfarçar qualquer cheiro que pudesse condená-los.
O rádio, que sempre estivera ligado, foi desligado e, mais uma vez, suco foi oferecido. Ambos tomaram e ao ver que ficariam dois copos sujos para serem lavados, Pedro advertiu que seria melhor lavar um deles para que não ficasse pistas de que mais uma pessoa esteve naquela casa.
_ Que nada, ela sabe que sou porcão mesmo, que vou usando um copo atrás do outro. Nem vai desconfiar de nada.
Pedro recebeu uma chave e sem entender nada, perguntou que chave era aquela e foi informado que era do cadeado.
_ Mas por que você está me dando?
_ Ah, se um dia você estiver aqui e acontecer alguma coisa você já tem a chave.
_ E por que eu?
Houve uma pausa...
_ Porque não acho que você seria louco suficiente de me prejudicar e se prejudicar.
Ficaram, ainda, alguns minutos conversando na cozinha. Pedro perguntou-lhe sobre o casamento e teve desabafos e ficou sabendo de coisas que parecia já saber, mas de outra forma. Conversaram sobre filhos e coisas que são complexas demais para se discutir em um conto, ou quase um. 
Saíram, foram até o ponto de ônibus. Juntos pegaram uma lotação. Everton desceu próximo à prefeitura da cidade e Pedro seguiu até a estação de trens.

Samir S. Souza
Publicado no Recanto das Letras em 03/12/2009
Código do texto: T1958950



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