30 julho 2017

SUÍCIDIO

imagem retirada do google

SUICÍDIO

Nesta hora, escondida do minha marido, eu não sei quem sou – não mais. Não sei se sou uma mulher, uma garota ou uma galinha. Acho que estou mais para galinha pelo fato de estar no meu computador, escondida, escrevendo essa pequena história de uma mulher cujo esposo, se acordar e a encontrar no computador, desconfiará de adultero e causará uma grande desavença – como já aconteceu algumas vezes.

Uma galinha tem sentimentos além do medo e dos sustos constantes? Pois se tiver, então não sou exatamente uma galinha. Mas o que sou? Muitos que se suicidam, o fizeram por acharem que não se encaixavam neste mundo. Eu acho que me perdi. Acho também que sei o caminho para me encontrar, mas, nesta vida, precisamos ter coragem e eu sou uma galinha, ou me tornei em uma.

Costumava escrever. Escrevia muito e sobre várias coisas; tudo o que me afligia, tudo o que me indignava. Porém, depois do meu casamento, deixei de expelir o que em mim doía. A proibição de ler até tarde da noite, de escrever de madrugada ou a qualquer horário – enquanto ele estivesse – apesar de causar cólera em mim, escrevi muito raramente. Eu podia ler, eu podia escrever quando ele não estava em casa, tinha que controlar meus pensamentos e inspiração para que não houvesse brigas – porque a galinha tinha que dedicar o seu tempo. Não bastava cozinhar, lavar e outras coisas.

Meu primeiro suicídio foi matar a parte de mim – pessoa – que escrevia e lia para refletir e enxergar o mundo com mais poesia apesar da dor. Morri um pouco a cada dia nos quais eu “tinha” que escutar reclamações do tipo: o trabalho; a comida não está bonita; o frango não está do jeito que ele gosta; a roupa não está tão cheirosa; a casa não está tão limpa; estou indo muito à casa da minha mãe; não estou dando atenção; não estou trepando com a freqüência desejada e muitas outras coisas;

Meu suicídio aconteceu várias vezes, quando a pessoa em mim fugia e dava lugar à galinha, que apesar de cacarejar um ‘não’, tinha que cumprir com sua "obrigação". Tantos ‘nãos’ que não foram respeitados. Fui cobrada pelo marido sobre a falta de carinho, mas aprendi que carinho é basicamente estímulos sexuais que precisam terminar em orgasmos clássicos. Desde quando galinha tem orgasmos?

Fico me perguntando quantos maridos e esposas se tornam galinhas. Quantos suicídios são cometidos...

Começo a temer que a galinha em mim também esteja fugindo. E o que serei depois disso? O que ficará no lugar? Hoje a pessoa em mim está um pouco forte, afinal estou escrevendo (é que meu marido não está em casa).

Meu suicídio acontece em vários dias. Há dias em que é menos, em outros é muito. E não depende de mais ninguém além de mim, para que a galinha saia da lama e volte para qualquer lugar e a pessoa em mim reviva, veja, observe, viva, ligue o computador a qualquer hora, escreva sem receios, que seja e esteja.

Xô galinha, xô!

Acho que ela ainda está aqui... (precisos desligar, meu marido está chegando)



Samir S. Souza
Publicado no Recanto das Letras em 30/07/2017
Código do texto: T6068881

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