09 outubro 2012

Uma Casa na Zona Norte

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UMA CASA NA ZONA NORTE


Dizem que há muito mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia possa compreender e creio que isso seja realmente verdadeiro. Confesso que é difícil para eu contar essa história uma vez que choramos quando testemunhamos certos fatos que são duvidados por muitos ou quase todos aqueles que nos cercam.

A dificuldade para contar o que presenciei não está no fato de acreditarem ou não no que estou para dizer, mas sim no meu medo de rever ou de sentir novamente a sensação vazia e gelada que tive. Agora é noite, e mesmo envergonhado, tenho que dizer que estou quase em pânico: será que estou sendo observado? Ou talvez, se eu estiver atraindo estas coisas em falar sobre elas? Enfim, preciso desabafar.

Renato é um amigo meu. Mora na zona norte e devido a um problema na infância tem dificuldade de locomoção. Às vezes, utiliza uma cadeira de rodas, mas esse fato nada interessa na história a não ser a sua cadeira.

Assim como as plantas, nós homens também criamos raízes e a saudade sempre estará presente quando estivermos longe do nosso primosolo. Não seria diferente com meu amigo que na suas férias, resolveu voltar para sua terra natal, em Pernambuco, para matar a saudade e aproveitar a companhia da família. Como ele mora sozinho, fez-me o pedido de olhar sua casa enquanto estivesse viajando e eu sem saber no que isso daria, aceitei.

Fiquei de cuidar da casa na sua ausência. Digo na sua ausência porque havia outra presença além de mim.

Durante o dia, eu não chegava a sentir nada, mas quando a noite descia e eu precisava recolher-me, começava a tortura psicológica. Dormir com a porta do quarto aberta nem pensar: juro que havia alguém em pé velando meu sono. Ainda, às vezes, eu tinha a impressão de que havia alguém deitado na cama ao lado da qual eu dormia. Arrepio-me toda vez que penso nisso. Levantar no meio da noite para ir ao banheiro ou beber água também era muito penoso. Passar pelo corredor escuro não era o grande problema, o meu medo era ver, ao ligar a luz, alguma sombra na parede ou qualquer coisa que estivesse parado ou parada no meio da escuridão.

Creio que no sétimo dia, pela madrugada, eu havia levantando com a boca seca e a garganta grudando. Era como se eu estivesse sonhando perdido no deserto. Como o meu medo ainda não era tão grande para me impedir de ir à cozinha, levantei-me, passei pelo corredor estreito e escuro até chegar à sala. Não demorei muito para ligar a luz da cozinha que fazia entrada com a sala que ficou parcialmente clareada. Lembro e estou certo de que a cadeira de rodas desse meu amigo estava sempre próxima a um dos sofás e depois de beber água e sair da cozinha, antes mesmo de eu desligar a luz, reparei que a cadeira estava ao lado do sofá oposto – no outro lado da sala. Talvez fosse a sonolência ou mesmo a força que temos – às vezes, de querer não enxergar as coisas mesmo tendo certeza de que elas são reais e verdadeiras – que eu voltei apressado para o quarto e lá fiquei até o sol apresentar-se para me avisar que não haveria qualquer espírito corajoso o suficiente para zombar de mim em sua luz.

Certa tarde, chamei meu irmão para passar a noite comigo e provavelmente isso tenha enfurecido qualquer coisa que estivesse nesta casa. Já deixei avisado ao Renato para procurar algum tipo de ajuda quando voltar, ele, é claro, riu de mim e até deu entender que eu estava aprontando alguma em sua ausência.

Meu irmão chegou lá pelas oito da noite, quando eu por minha vez, já estava um tanto aflito. Claro que eu servi de piada para meu irmão que também não entendia o meu medo e achava que eu estava tramando alguma coisa. Eu não havia feito janta e meu irmão e eu estávamos famintos. A sugestão foi ligar para pizzaria. Depois de comer e beber um refrigerante de guaraná que me deixou, e provavelmente não o único, estufado, deitei-me no sofá para assistir à televisão enquanto meu irmão foi tomar banho. Ao ver próxima ao sofá, me questionou a respeito da cadeira de rodas. E esclareci sobre a paralisia que esse meu amigo teve ainda quando criança. Quando questionado se ele anda, informei que mancando e que não usa a cadeira de rodas com freqüência. Meu irmão ficou curioso ao saber que Renato é atleta – joga basquete de cadeira.

Conversa pra lá e pra cá e o tempo não pára para que possamos colocas as coisas em seus lugares. Já era quase meia noite quando fomos dormir. Eu fui para o quarto e meu irmão ficou na sala com a televisão ligada – ele diz que o barulho da TV ajuda agente adormecer rapidamente.

Noite quente, um clima abafado e as cobertas e lençóis foram deixados de lado, no entanto, em algum momento da madrugada, o ar fica um pouco gelado e quase sempre acabamos acordando para procurar qualquer coisa que possamos colocar sobre as pernas para esquentar um pouco. Era por volta das três horas quando escutei um barulho vindo da sala. De imediato apenas abri os olhos e imaginei que fosse meu irmão em busca de água ou banheiro. Como não houve outro barulho comecei a pegar no sono novamente quando me assustei com um forte estrondo, igual a um soco dado sobre uma mesa.

Levantei-me e fui ver o que acontecia. Sai do quarto e dei de cara com o corredor levemente clareado pela luz da cozinha que estava acesa. Não sei como explicar, mas juro que vi o que parecia um pássaro – ou a sombra dele – voar sobre minha cabeça. Agachei-me assustado e tentei entender por onde aquilo poderia ter entrado. Com o susto chamei pelo nome do meu irmão que não respondeu.

Ele não estava deitado no sofá e imaginei que estivesse na cozinha, mas algo pavoroso acontecia. Estava em pé como que se estivesse de castigo virado para a porta com o rosto quase grudado nela. De costas para mim, não respondia meus chamados. Eu realmente não sabia se eu me aproximava ou fazia qualquer outra coisa que seria nada. Até passou pela minha cabeça voltar para o quarto, deitar, dormir e esperar clarear. Nestes momentos, nossas atitudes não são totalmente controladas por nós mesmos e alguma coisa nos faz avançar mesmo quando nossa razão nos grita pra fugir.

Cheguei perto, chamei pelo seu nome umas três vezes, mas não respondeu. Hoje tenho quase certeza – pra mim – que nosso coração tem a capacidade de se locomover dentro do nosso peito: sentia-o já na minha garganta. Um vazio tomava conta do meu estômago – creio que nem seja um vazio, mas o medo que congela – e meus olhos estavam cheios de lágrimas. Creio também que a razão pelas lágrimas seja amenizar a maldade que talvez possa ser praticada contra nós. Que maldade era essa eu ainda não sei dizer e acho que nem quero saber. Quando percebi que meu irmão começava a movimentar-se, eu me afastei e fiquei apenas olhando e imaginando tudo e nada ao mesmo. Ele estava com os olhos abertos e ao se virar me encarou com dureza e profundidade. Deitou-se novamente no sofá e colocou as mãos sobre o peito. Não ousei fazer qualquer ruído e tentava não chorar.

Neste instante, a televisão ligou sozinha e clareou mais a sala. Não passava nada, o canal estava fora do ar e havia apenas a tela azul claro. O susto foi enorme e o que mais assusta nestes casos é a nossa razão não encontrar razões para essas coisas que muitos têm explicações e que, geralmente, confunde e aumenta mais o nosso medo.

Eu não podia mais ficar ali esperando qualquer coisa e nem podia também sair correndo e deixar meu irmão deitado sobre o sofá. Liguei a luz da sala e ao mesmo tempo, a luz amarela alaranjada da cozinha e a TV desligaram. Meu irmão acordou assustado perguntando-me o que eu fazia. Tentei contar rapidamente, mas não fui acreditado e nem eu mesmo sabia exatamente o que contar e por onde começar.

Pela voz um tanto nervosa e pela expressão de seu rosto, percebi que eu não era o único assustado naquela casa. Hoje, contudo, percebo que os nossos sustos eram diferentes na mesma situação e que após alguns segundos de muita incompreensão individual, nós dois passamos a compartilhar o mesmo medo. A porta da cozinha fechou-se bruscamente assustando-nos com a batida e segundos depois o porta do banheiro e logo em seguida a porta do quarto onde eu dormia, então a porta de outro quarto também. Todas se fecharam uma após a outra sempre fazendo muito barulho e a cada batida de porta era como levar um soco na boca do estômago e alimento para o medo que me deixava mais desnorteado.

Naquele momento dos acontecimentos, nós já estávamos grudados um ao outro, apenas olhando em direção às pancadas provocadas pelas portas.

_ O que está acontecendo?

_ Não sei. Era isso o que eu estava tentando te contar. Respondi.

Após um sorriso sem graça, medroso e desesperado meu irmão replicou:

_ É apenas o vento. Deixa de ser trouxa.

Após a palavra “trouxa” outra coisa impressionante aconteceu: a porta da cozinha, que outrora havia se fechado violentamente, abriu aos poucos, como se alguém a abrisse com cuidado. A única coisa que podíamos fazer naquele instante era olhar e esperar o que poderia acontecer. Meu coração, creio, já nem batia mais. Lembro apenas da escuridão que estava por de trás da porta enquanto esta se abria e imagens de espíritos ou qualquer outra coisa semelhante vinha a minha mente, o que me perturbava mais ainda. Aquela porta abriu-se não por completa o que piorava a nossa situação e de repente a escuridão deu lugar à luz amarelada. Após isso, a porta do banheiro também começou a se abrir, sei disso por que sua madeira gemia ao abrir ou fechar fazendo aquele som clichê de filmes e histórias de terror, e a luz também tomou o lugar do escuro.

Após cerca de dois ou três minutos, a casa toda estava iluminada e todas as portas que haviam se fechado, abriram-se sozinhas – estavam entreabertas.

Foi quando o celular do meu irmão tocou – era o despertador. Já era cinco e meia da manhã e nunca estivemos tão felizes por ouvir o despertador do celular avisando que já estaria na hora de levantar para ir ao trabalho. Não esperamos nem mais um minuto. Meu irmão arrumou-se para trabalhar e eu me arrumei também para ir para casa e ligar para o Renato para visá-lo que não passaria mais a noite em sua casa, apenas daria uma olhada durante o dia em dias intercalados.

Depois de trancar tudo e pegar o ônibus, meu irmão resolveu não ir trabalhar e ficar o dia em casa descansando. Confesso que é difícil descansar agora, tanto eu quanto ele não conseguimos ficar muito tempo sozinhos e nem gostamos de falar sobre o assunto. Estou apenas contando esta história por que eu preciso limpá-la de dentro de mim ou tentar.

Voltei outros dias para olhar a casa e providenciar qualquer coisa que precisasse, mas meu irmão já havia advertido que jamais voltaria lá comigo e que se eu voltasse seria problema meu.

Renato voltou de suas férias e eu tentei contar superficialmente o que acontecera e ele disse que nunca viu ou sentiu nada. Acho que ele ficou magoado quando eu disse que jamais colocaria os pés dentro daquela casa, e até hoje, arrumo alguma desculpa quando sou convidado para um almoço ou festa de aniversário de alguns de nossos amigos.

Ainda não sei o que aconteceu e o que poderia ter feito aquilo e prefiro ficar sem saber. Até hoje, na minha própria casa, não consigo e não deixo nenhuma porta que seja aberta pela metade.

Meu irmão disse que não se lembra de quando ficou em pé virado para a porta e até chega a brigar comigo dizendo que estou mentido ou tentando assustá-lo. Eu por minha vez, se pudesse apagar certas coisas da minha mente tudo seria mais fácil.

De uma coisa eu estou certo. Nem eu e nem meu irmão seremos os mesmos e nem adianta tentarmos porque não esqueceremos e não importa o quanto nos esforcemos para acreditarem em nós que ninguém irá acreditar. A solução é seguir em frente, sempre cuidadosos com qualquer porta entreaberta, qualquer cômodo escuro, qualquer lâmpada, qualquer coisa...


Samir S. Souza 
Conto enviado para Editora Estronho – concurso “Malditas – As casas têm atmosfera”- Conto não premiado.

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